"Passeio, gosto muito de passear..."
Família. D. Virgínia vai fazer 110 anos em Abril e será a 5.ª ou 6.ª portuguesa mais velha
"Quantos anos tenho? Alguns 100! Tenho 109?", admira-se Maria Virgínia Ferreira de Almeida. E ri-se, ri-se muito. Faz poses para a fotografia, canta e recita quadras da meninice. Flashes de uma memória que vai e vem. Mas quando se lembra é ao pormenor, como os nomes das ruas e das pessoas com quem brincou, algumas da realeza. Porque D. Virgínia, ex-professora de Física, faz 110 anos no dia 3 de Abril. Viveu em três séculos e até aprendeu o minuete, dança de salão do século XVIII. Passou por outros tantos regimes: monarquia, salazarismo e democracia. Adora passear, sobretudo em S. Pedro do Sul.
Muitos anos, tantos que às vezes já tem pena do dinheiro gasto pelo Estado com a sua reforma de professora. Segundo Filipe Prista Lucas, será a 5.ª ou 6.ª mulher mais velha no País.
"Não me falta nada. Descanso e faço passeios quando está bom tempo. Gosto muito de passear. Passeio com um e com outro. São muito meus amigos", conta D. Virgínia. É esta família que diz ser o segredo da sua longevidade, e também o ser alegre e bem-disposta, nunca stressar, andar a pé e comer regradamente. "Fui educada a comer de tudo. Como fruta, sopinha, carne, peixe", explica. A filha com quem vive, Maria Aldegundes, também ex-professora, acrescenta: "Nunca vi a minha mãe comer de mais." E está sempre a brincar com as duas empregadas, a do dia e a da noite. Mexe-se bem e mazelas só nos pulsos, devido a um problema no túnel cárpico. Análises e tensão estão boas.
Nasceu no Porto, "na Rua da Cedofeita e na casa onde viveu Carolina Michaëlis", conta a "avoninha", como lhe chamam as duas bisnetas que com ela fazem desenhos: a Filipa e a Marta.
É sábado e está uma manhã de Inverno que não a deixa apreciar a vista da janela, uma colina de Coimbra. "Costuma ser tão linda, até se vê o mar. Agora está feia", lamenta.
Estudou em Viseu e num liceu misto onde só havia mais duas raparigas, mas nada de namorados. "E houve quem me fizesse declarações", diz.
A Viseu seguiu-se Coimbra, onde se formou em Ciências Físico-Químicas em 1923. Tinha como amigas Maria Teresa Basto, Dyonísia Camões e Elisa Vilar e as quatro formaram a primeira república feminina na cidade dos estudantes. "Vivi ao lado do Salazar, que era professor na universidade, e levava sempre uma chapelada quando passava por ele", confidencia. Foi professora, carreira que terminou no Liceu Infanta D. Maria, actualmente escola secundária.
Filha de médico, sempre teve uma vida desafogada. A mãe morreu quando ela tinha sete anos e a irmã oito. "Tive um pai maravilhoso", recorda. Casou-se aos 33 anos, tem seis filhos, 13 netos e oito bisnetos.
"Olha o Vouga entre verduras, como vai devagarinho, parece que vai pasmado, de ver tão linho caminho", recita D. Virgínia. E vai lembrando os passeios no coche da condessa de Moniz e o convívio no palacete da família de Manuel Alegre.
Dec 15, 2008
1:47 AM